O tempo dos filhos ou expectativa versus realidade

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Oi, gente!

Hoje venho aqui escrever sobre um assunto que considero muito importante: respeitar o tempo de crescimento dos nossos filhos.

Na cultura em que vivemos do “bem sucedido”, quem apresenta dificuldades é tido como perdedor, atrasado…

Bem, eu nunca pensei desta forma, mas canso de ver mães e pais fazendo um esforço enorme para que seus filhos sejam os melhores. Antes mesmo da alfabetização, além da escola, fazem aula de inglês, espanhol, natação, ballet, judô… Ufa!

Crianças ocupadas 100% do tempo em mil atividades, com uma rotina cansativa, quase de um adulto.

Acho que falta tempo para as crianças serem apenas crianças. Longe das nossas expectativas gigantescas sobre elas, sabe?

Quantas vezes ouvimos alguém falar: fulaninho é superdotado! Fulaninho é a criança mais inteligente que já conheci. Tira 10 em tudo! Na boa, ninguém merece carregar o fardo de não poder errar.

Eu cresci podendo errar, meus pais nunca regularam as minhas notas e sempre me delegaram responsabilidades. Estes foram valores transmitidos a mim pela minha família e é o que tentamos passar para o nosso filho também.

Falando nele, Vicente tem nos ensinado muito a respeito do seu próprio tempo. O tempinho dele de maturação das coisas e de seus aprendizados.

No início do ano, marcamos uma conversa na escola (aquelas conversas que eu sempre choro! Rs!) Ele estava dando uns “defeitos”, começou a não querer ir pra aula e nós já estávamos sacando que ele ficava muito frustrado quando não conseguia fazer alguma coisa.

Vicente está na pré-alfabetização. Isso quer dizer que não se espera dele que já escreva, mas já existe um contato maior com o mundo letrado. Esse mundo organizado das letras, sílabas, palavras, frases… Este código tão importante na nossa vida. Aprender a ler é libertador por um lado e aprisionador por outro. É um momento em que a imaginação sai um pouco de cena e as palavras dão sentido ao mundo. Crescer é difícil mesmo.

Na reunião com a orientadora da escola, ela nos disse que o Vicente não tem nenhuma questão cognitiva, estava apenas um pouco imaturo neste processo da alfabetização, nos mostrou alguns desenhos, todos com o traço muito impreciso, garranchos mesmo.

Eu e Marcelo nos olhamos e perguntamos:

– Tá, o que podemos fazer para ajudá-lo?

Muito sinceramente, eu não me preocupei com o tal do “atraso”, o que estava me deixando preocupada era perceber que ele estava com a auto-estima baixa. Achando que não era capaz. Desistindo sem tentar. E olha que aqui em casa, a gente sempre comemora qualquer conquista dele. Mas não tem jeito, as crianças têm uma às outras como referência. Elas se comparam. Ponto.

Decidimos junto com a escola que ele começaria um trabalho com uma psicopedagoga. Um olhar de fora seria valioso num momento em que estávamos nos sentindo perdidos. Vicente frequenta uma ótima escola, nós incentivamos a leitura, levamos ao teatro com frequência, ou seja, ele tem muitos estímulos e pedagogizar o nosso lar não nos parecia uma boa opção.

Desde então ele frequenta a psicopedagoga e está sendo ótimo! Os progressos não são na velocidade da nossa expectativa, são lentos, mas sinto que a auto-confiança dele melhorou, já está se sentindo mais confortável para arriscar. Isso pra gente é o que vale!

Agora temos que fazer uma escolha. Marcelo é coordenador de uma boa escola que começa no primeiro ano do ensino fundamental. Nos nossos planos, estava certo que ele iria estudar lá no ano que vem. Afinal, não tá fácil pra ninguém, seria uma ótima economia, já que filhos de funcionários têm bolsa.

Mas conversando com a escola e com a psicopedagoga, entendemos que uma possibilidade boa seria ele fazer mais um ano na educação infantil, antes de partir para alfabetização. Isso mudaria nossos planos.

O dilema é: jogar nosso filho no mundo, no tempo do mundo ou avançar mais devagar, em ambas as opções dando a ele os recursos necessários para que ele se sinta sinta seguro, claro.

Bom, estamos em agosto ainda, até o final do semestre muita água pode rolar, então temos um tempinho para amadurecer as ideias.

Se a opção for mantê-lo mais um ano na educação infantil, gostaria de dizer uma coisa a ele:

“Filho, amado, eu não vou te jogar na fogueira. Não mesmo. Lá na frente você pode até ficar P da vida comigo porque eu “atrasei” a sua vida escolar em um ano, mas ainda assim, olho pra você e decido te esperar. Você vai chegar lá! A vida se encarregará de te jogar na fogueira um milhão de vezes, mas eu não.”

Falo “eu”porque fica mais bonito, mas na verdade tô falando por mim e pelo seu pai. Que é fechamento comigo!

Se a opção for avançar com ele para a alfabetização:

“Meu amor, estarei sempre atenta e pronta pra te ajudar. Cresce, cresce que você já pode! Ganha asas que suas raízes estão bem fincadas na terra.”

Fora isso tudo, faço aqui um mea culpa de que este é um post “white people problem”, sei que a maioria das crianças brasileiras vive problemas de ordem muito mais grave do que esse.

É sempre bom relativizar.  Tentar enxergar para além do nosso umbigo,  dos nossos probleminhas, do nosso mundinho…

Uma semana inspiradora a todos!

Ilustração: Tati Vidal

Natália Sambrini
Natália Sambrini
Sou Natalia, mãe do Vicente, roteirista, atriz, produtora, escorpião com ascendente em áries e lua em câncer (pra quem é ligado nos astros), balzaca, brasileira por parte de mãe e paraguaia por parte de pai, carioca da gema, feminista, questionadora, ansiosa, inquieta e insone por natureza... sou coisa a beça! O que eu gosto mesmo é de gente!

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