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Oi, gente! Tô sumidinha da silva e com saudade desse cantinho. Meu sumiço tem a ver com o tema deste post.

Meu filho, Vicente, tem 5 anos. Tive o privilégio (um privilégio caótico, confesso) de trabalhar em casa até os 4 anos e meio dele… Saía, ia à reuniões esporádicas, mas a verdade é que passei MUITO tempo ao lado dele nesta, digamos assim, primeira infância. Nem sempre dei o meu melhor, verdade seja dita, estar perto demais é complexo. Mas pra mim, Natalia, não teria como ser diferente.

Sofria vendo minhas amigas voltando ao mercado de trabalho (insano e nada acolhedor para as mães, na maioria das vezes) com seus bebês de 4/5 meses, naquele esquema tirando leite no banheiro, acionando todo mundo por perto que pudesse ajudar. E quem não tem uma rede de apoio? Coloca na creche. E quando adoece, faz como? Falta o trabalho. Mas bebê adoece bastante, principalmente os bebês que vão à creche. Falta muito? Perde o emprego. Vi muitas dessas mulheres desistirem do mercado de trabalho, ficarem felizes e realizadas cuidando exclusivamente dos filhos, outras nem tanto. Vi mulheres se reinventarem, empreendendo, criando pequenos ou grandes negócios e virando suas próprias chefes.

Por outro lado, há quem não se imagine o dia todo vivendo em função de filho. Existem aquelas mulheres que sentem a necessidade de voltar a trabalhar e, sinceramente, eu as entendo. A simbiose mãe e filho (principalmente quando eles são bebês) é, muitas vezes, sufocante. Tem momentos em que não conseguimos nos enxergar como um indivíduo, parece que perdemos a identidade. E parece que nada vai ser como antes. Na verdade, não mesmo, mas isso não é necessariamente ruim e essa descoberta se dá aos poucos.

Aqui em casa, a gente nunca curtiu muito terceirizar. Nada contra, de verdade, isso não é um julgamento. Acredito mesmo que cada família encontra um jeito que se adequa mais ao seu perfil e realidade, mas por aqui, sentimos necessidade de participar ativamente da rotina dele: levar e buscar na escola, natação, pediatra, ir nas festinhas dos amigos, nos relacionarmos com outras famílias da escola… Isso é o que faz sentido pra nós. Além de tudo, eu curto muito cuidar e isso se estende para outras relações. Sempre cuidei um pouco de todo mundo.

Só que minha rotina, de uns meses pra cá veio mudando gradativamente. Comecei a trabalhar fora de casa que nem a maioria das pessoas normais (hahah!). Ainda com alguma flexibilidade, mas ando passando longas horas longe dele. E pra mim, Vicente e Marcelo, isso é uma super novidade. Estamos ainda ajustando os ponteiros e viabilizando esquemas pra que tudo corra bem.

No início foi difícil. Vicente sentiu muito, começou a dar defeito pra ir à escola, porque sabia que só me veria novamente tarde da noite. Este momento coincidiu com algumas dificuldades pedagógicas apontadas pela professora. Nada grave, mas foi um momento um pouco tenso, de somatizações da parte dele e culpa da minha. A eterna culpa, essa desgraçada que a gente sabe que não presta pra nada e insiste em se instalar feito uma má inquilina. Rala culpa!

Depois de uma reunião na escola (aliás, coloca aqui o dedinho quem se acaba de chorar em reunião com a orientadora pedagógica/psicóloga da escola! Gente, pelamor, acho que não devo estar sozinha porque ela saca logo um lencinho, rs), ele começou um trabalho com uma psicopedagoga e está sendo muito, muito bom mesmo. Mas isso é tema pra um outro post.

Bom, gente, claro que isso tudo me desestabilizou, difícil ficar tranquila vendo seu filho sofrendo. Mas ao mesmo tempo, algo me dizia que era muito importante para ele lidar com essa falta, talvez fundamental. Uma oportunidade de crescimento. Ele já tem idade suficiente pra compreender que a mãe dele precisa trabalhar, que agora o esquema mudou e que pode vir a mudar mais milhões de vezes, e  já que meu trabalho não é exatamente o mais estável de todos. (Aliás dona estabilidade, você existe?) E que trabalhar me traz prazer e que é legal ter uma mãe fazendo o que gosta. Néam?

Ainda estamos em processo, mas com o tempo, as coisas foram se ajustando. É impressionante a capacidade que o ser humano tem de se adaptar. A gente se adapta e ponto.

Bom, o mais importante é que a gente saiba que pode tudo! A gente pode sim ser mulher, mãe e profissional. Por que não? Uma coisa é certa: não rola ser perfeita em tudo. Isso aí não dá. Se você estiver se doando muito numa determinada área, provavelmente está faltando em outra. É matemática, sabe? E olha que eu nunca fui muito boa nessa matéria.

Nunca tive fama de furona, sempre estive muito perto dos meus amigos e de uns tempos pra cá, tudo que eu mais ouço é:

  • Desisto de você!

  • Quando tiver um tempinho na sua agenda, avisa.

  • Nem te chamo porque sei que você não vai.

Não curto nadinha furar, sumir da vida de quem é importante pra mim, mas a verdade é que quando acontece isso, é porque realmente está difícil de conciliar o básico. Vivo nessa eterna busca do equilíbrio das mil Natalias e suas necessidades e interesses. Difícil, viu? Tenho certeza que não tenho êxito em tudo, mas vou morrer tentando (sem culpa).

Olha, se conseguirmos eliminar a sensação terrível de culpa e dívida, já tá valendo. Se aprendermos a cobrar menos e a lidar melhor com as cobranças, melhor ainda.

Seguimos equilibrando os mil pratinhos e deixando inevitavelmente algum (muito mais que um, vai?) cair de vez em quando. E quando cai, segue o baile porque tá tudo bem! 🙂

Ilustração : Tati Vidal 

 

Natália Sambrini
Natália Sambrini
Sou Natalia, mãe do Vicente, roteirista, atriz, produtora, escorpião com ascendente em áries e lua em câncer (pra quem é ligado nos astros), balzaca, brasileira por parte de mãe e paraguaia por parte de pai, carioca da gema, feminista, questionadora, ansiosa, inquieta e insone por natureza... sou coisa a beça! O que eu gosto mesmo é de gente!

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