O tempo dos filhos ou expectativa versus realidade
14 de agosto de 2017
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Hoje vim aqui refletir sobre machismo, e consequentemente sobre o problema que é ser mulher no mundo.

Teve o juiz que disse que não houve constrangimento quando um homem ejaculou no pescoço de uma mulher num ônibus em São Paulo, teve também uma mulher, mãe, próxima a mim que me revelou que o “pai” de sua filha de pouco mais de um ano, acha que ser pai é visitar quando quer, fazer uma gracinha e ir embora. Pai de rede social, saca? E isso é tão, tão comum. Conheço várias mulheres nesta mesmíssima situação.

E eu nem consigo imaginar a pressão de ser uma mãe solo. Porque não sou. Porque tenho ao meu lado um cara que é pai, que assume suas responsabilidades, que não me ajuda porque cria junto.

Se tem uma coisa que não entra na minha cabeça, é um ser humano abrir mão de ser presente na vida do próprio filho. A gente é presente do jeito que dá, tem dias que não dá mesmo, que não estamos inteiros ali, e tudo bem. Vida que segue. Ninguém disse que seria fácil.

O que me revolta nisso aí, é que nós, mulheres, não podemos resolver abandonar um filho.
Veja bem, não que a gente queira, a gente na grande maioria das vezes não quer. Mas se quisesse, não poderia! Tem uma diferença, sabe? A sociedade não autoriza uma mãe a não ser mãe de um filho. A sociedade patriarcal nos esfrega todos os dias que o filho é da MÃE. Ponto.

Uma mãe ausente é uma desalmada, uma monstra e um pai ausente, é só um pai mesmo. Imaturo, infantil, que não aguentou o tranco, que precisa do tempo dele… As pessoas passam a mão na cabeça escancaradamente dos homens, vão criando um milhão de desculpas, numa tentativa de justificar o injustificável.

Ele busca às vezes pra passear?
Dá presente no aniversário?
Mas ele paga pensão, né?
Ahhhh… então beleza, se paga pensão é paizão.
Sério, isso é bizarro.
O machismo é algo tão enraizado que a gente tenta dribá-lo e ainda assim, se pega sendo machista.

Eu sou roteirista. Meu trabalho é ter ideias e inventar histórias.
Estava escrevendo uma história em que um dos personagens era um pai que criava o filho sozinho.
Olha, foi uma queimação de mufa pra entender quem era essa mãe que sumiu, o motivo que fez ela abandoná-lo, mil tentativas de amenizar, de tentar encontrar justificativas pra que a personagem tenha agido de forma tão cruel…

E no fim das contas, confesso: eu sempre achei essa personagem uma filha da puta (até o filha é da puta que pariu e não do puto que fugiu! ps: palmas pra quem inventou a expressão “puto que fugiu”! Certeza que foi mulher a gente tem. Gênia! Vamos adotar?)
Simplesmente não conseguia ser empática com essa personagem nem por um segundo.

E aí você pode pensar: mas abandonar um filho é sempre um horror.
Beleza, você pode até achar isso, só que tinha uma outra personagem que era criada pela mãe e quase nunca eu pensava onde estava o pai dela. Aquela figura ausente não me causava incômodo. Engulo seco.

Isso é machismo? É.
Triste, não?

Logo eu, que me considero uma mulher feminista e desconstruidona, caio em contradição.
Me dar conta disso é no mínimo difícil.
Reconhecer é um grande passo, claro, faz parte do processo de desconstrução tão necessário para que a gente viva num mundo mais justo e igualitário.

Fico sempre pensando sobre a importância de ser mãe de um menino.
Ele é o homem de amanhã. E esse homem tem a obrigação de ser melhor! E qual é o meu papel e do pai dele nisso?

Não é simples driblar os brinquedos com gênero, não é simples ouví-lo dizer que não quer assistir “Frozen”, que é de menina.
Não é num passe de mágica que vamos conseguir equalizar essa zona toda. É um trabalho de sementinha.

Outro dia estava vendo algumas fotos de quando estava grávida do Vivi. Mostrei pra ele e ele ficou super interessado. Depois morreu de vergonha porque eu o vi colocando um pano dentro da blusa, pra fingir que estava grávido também.

Eu tive um treco internamente. Não por ele estar brincando de estar grávido, afinal ele é uma criança. Mas porque percebi que ele ficou envergonhado.
Ele só tem 5 anos! Tem pais com uma mente aberta, estuda numa escola pra frentex…
Onde ele aprende que existe coisa de menina e de menino?

Ele não aprende. Ele apenas É/ESTÁ no mundo. E o mundo é machista. Fim? Não. Isso tem que mudar. E sim, os meninos de amanhã serão melhores do que os de hoje.

A gente vai fazer o possível e o impossível, vai bater cabeça, dar murro em ponta de faca, água mole em pedra dura tanto bate até que fura.
Seremos incansáveis nessa luta. In-can-sá-veis.

E não me venha falar que meu filho pode ser gay. Porque ele pode mesmo, o que quiser. Só não pode ser machista.

Às mulheres que estão criando filhos sozinhas, queria dizer que vocês não são guerreiras e não deveriam ganhar parabéns no dia dos pais. Vocês são mulheres sobrecarregadas até o último fio de cabelo. A única coisa que me parece confortável falar é que sinto muito mesmo que vocês passem por isso.

Gente, vocês estão enxergando? E ainda tem uma galera aí que acha que feminismo é coisa de mulher que não quer se depilar…

Ilustração bafônica: Tati Vidal.

Natália Sambrini
Natália Sambrini
Sou Natalia, mãe do Vicente, roteirista, atriz, produtora, escorpião com ascendente em áries e lua em câncer (pra quem é ligado nos astros), balzaca, brasileira por parte de mãe e paraguaia por parte de pai, carioca da gema, feminista, questionadora, ansiosa, inquieta e insone por natureza... sou coisa a beça! O que eu gosto mesmo é de gente!

2 Comentários

  1. Bel Sampaio disse:

    Amei minha amiga! Texto incrível! Obrigada por nos fazer pensar e rever alguns padrões tão incutidos. Sou sua fã!

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