Maternidade real ou o que não me contaram ou Carpe Diem!

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E aí que quando você engravida, todo mundo te fala que a sua vida vai mudar, você até imagina isso, mas não consegue dimensionar o quanto.

– Aproveita pra dormir muito porque nunca mais você terá uma noite de sono decente! – é o que todos dizem!

Apesar desta frase ter um quê de verdadeira, nunca vi muito sentido nela, já que não podemos fazer estoque de horas dormidas! Seria bem bom se fosse possível, tipo: vou dar uma hibernadinha aqui pra não dormir nos próximos 6 meses pelo menos…

Você começa a imaginar as mudanças que virão, baseado nas mulheres que são mães que te cercam, no relato delas e também a partir da sua intuição… Mas só na hora que o seu bebê sai da barriga e se concretiza bem ali na sua frente, é que essas fichas começam a cair (taí uma frase que não me deixa mentir a idade! Hoje em dia fichas não caem mais, Natalia! Sim, mas por aqui, elas ainda insistem em cair e muito!)

Eu fui uma adolescente e jovem adulta tranquila, porém bem ativa. Sempre gostei muito da minha casa, das minhas coisinhas, na mesma proporção em que gostava da rua. Nunca curti altas badalações, mas sempre amei estar perto dos meus amigos em festinhas dentro de casa, ir ao teatro e ao cinema, ir a barzinhos beber uma cerveja, sair pra dançar vez ou outra, ir a shows dos meus cantores preferidos no circo voador ou cantar numa roda de viola num luau na praia. Meus hábitos sempre foram noturnos. Sempre amei dormir tarde e acordar tarde e tinha uma vaga ideia de que sofreria com isso após o nascimento do Vicente.

Durante a gravidez, principalmente no final por conta do peso da barriga, do cansaço, você naturalmente começa a diminuir o ritmo, mas quando o bebê nasce, é que vem o choque de realidade.

Lembro muito de um dia que estava em casa com Marcelo e Vicente, que era recém-nascido, tinha no máximo 5 dias de vida.
Amamentei, ele adormeceu e fui na cozinha pegar um copo d’água. De repente parei olhando na direção do microondas e comecei a chorar, copiosamente, litros.
Me lembro como se fosse ontem daquele misto de sensações tão fortes e confusas que sentia naquele momento e que precisaram transbordar dos olhos pra fora, “inundando” a cozinha.

Marcelo apareceu na hora e ficou super preocupado:

– Nat, o que aconteceu? Por que você tá chorando?

– Não sei, não sei.

Ao mesmo tempo que eu não sabia nada direito mesmo, acho que desconfiava de algumas coisas.

Lembro que enquanto olhava as horas no microondas, pensava em todas as mulheres que conhecia e que eram mães, inclusive a minha própria e como elas sobreviveram àquele tsunami. Senti raiva de todas elas.

Raiva por terem me poupada da verdade, do cansaço real, do medo de amar tanto um serzinho, de se entregar pra esse amor, de algo ruim acontecer com ele, de não poder protegê-lo de todo o mal, do chopp que eu não estava tomando naquele momento, da peça que estava em cartaz que eu tanto queria ver e não tinha a menor perspectiva…  Era uma raiva misturada com admiração:

-Caramba, elas conseguiram!

Parecia que TUDO vinha na minha cabeça ao mesmo tempo. Era muita angústia e culpa, claro, afinal, uma mãe só deveria agradecer por ter um filho saudável e eu devia ser uma pecadora porque não me sentia plena nem sabia se estava feliz, certo?

Errado! Mães são seres humanos com medos, quereres, limitações e frustrações, e além disso tudo, ainda tem a avalanche de hormônios do pós parto circulando pelo corpo. Não é moleza!
O buraco da maternidade é bem mais embaixo. Eu simplesmente tenho ânsias dessa romantização: sou mãe portanto sou feliz, portanto preciso sorrir, portanto não posso ficar triste, nem muito menos reclamar.

A maternidade é um aprendizado diário, é doação primeiro pra depois virar troca.
Um recém nascido só precisa de três coisas: colo, peito e amor.
Só que a mãe do recém nascido também requer alguns cuidados e na maioria das vezes, fica ali, meio esquecida, num mar de julgamentos e apontamentos. Na maioria das vezes, as pessoas querem ajudar, são bem intencionadas, mas existe uma afobação que acaba atrapalhando.

-Faz assim, não faz assado… Ele vai engasgar! Não afoga o menino, você tá deixando cair muita água na cabeça dele. Tem certeza que seu leite tá saindo? Ele deve sentir fome…

Ser mãe de primeira viagem é uma aventura perigosa! Fico imaginando que o segundo deve ser tão mais tranquilo… Mas também só imagino, rs.

Quando o Vicente nasceu, eu só pedia a Deus que o tempo passasse e que ele fizesse logo 3 meses. Todos falam que 3 meses é um marco. É o fim das cólicas (ele tinha muitas! Todos os dias! E eu sofria o vendo sofrer), o bebê passa a mamar em intervalos maiores, te possibilitando um pouco mais de descanso, é um momento em que o bebê começa a ficar mais durinho, a interagir mais, sorrir…

Hoje em dia, penso que tudo isso fazia parte de uma ansiedade tão grande minha… De uma dificuldade que me persegue que é não ficar AQUI. Não viver simplesmente AGORA. Aproveitar o que o momento PRESENTE me oferece. Ao invés disso, tô sempre com uma perna “daqui a 3 meses”, “daqui a 1 ano”, “quando eu emagrecer”, “quando eu ganhar mais dinheiro”…

Tô com 31 anos. Sou jovem, eu sei, mas também não nasci ontem. Já sou capaz de me observar e chegar a algumas conclusões. Faço análise duas vezes por semana pra tentar dar conta do tanto que acontece aqui dentro!

O tempo tá passando rápido demais. A internet parece que chegou e acelerou tudo ainda mais. Enquanto escrevo aqui, Vicente está dormindo do meu lado. Olho pra ele, lembro da época que ele era tão miúdo e agora ele já mede mais de um metro! Procuro aquele cheirinho de cabeça de neném e encontro um novo cheiro de menino. Tá passando muito rápido, gente. Hoje vou ficar aqui, no dia quatro de dezembro de dois mil e quinze, às 08:53 da manhã, no presente, porque quero aproveitar. <3

Natália Sambrini
Natália Sambrini
Sou Natalia, mãe do Vicente, roteirista, atriz, produtora, escorpião com ascendente em áries e lua em câncer (pra quem é ligado nos astros), balzaca, brasileira por parte de mãe e paraguaia por parte de pai, carioca da gema, feminista, questionadora, ansiosa, inquieta e insone por natureza... sou coisa a beça! O que eu gosto mesmo é de gente!

4 Comentários

  1. Cintia disse:

    Adoro tudo que você escreve, é tão transparente e leve…
    Sucesso sempre meu xuxu! ??❤️?

  2. Alessandra disse:

    Querida Nat,

    Estou secando minhas lágrimas para responder a este post tão comovente e sincero.
    Me vi em muitos momentos relatados aqui, principalmente quando fala “Parecia que TUDO vinha na minha cabeça ao mesmo tempo. Era muita angústia e culpa, claro, afinal, uma mãe só deveria agradecer por ter um filho saudável e eu devia ser uma pecadora porque não me sentia plena nem sabia se estava feliz, certo?”
    A maternidade é linda, maravilhosa, mas o início é extremamente difícil e confuso!!!
    Penso como você, não podemos esconder a verdade desse lado obscuro, mas pouco depois somos recompensadas com muito sorriso, amor e carinho dos nosso filhotes!
    Parabéns pelo texto!!! Viva Vicente e Fidel e viva também Natália e Alessandra, nós sobrevivemos 🙂

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